quinta-feira, 6 de maio de 2010

NHÁ CHICA - Por Paulo Coelho

A BEATA DE BAEPENDI
Em 2010 comemoram-se 200 anos de batismo de Nhá Chica de Baependi e quero recontar uma história:


Muito tempo atrás, durante meu período hippie, minha irmã me convidou para ser padrinho de sua primeira filha. O primeiro ano se passou, e o batizado não acontecia nunca. Achei que minha irmã tinha mudado de idéia, fui perguntar o que havia acontecido, e ela responde:
- Você continua padrinho. Acontece que fiz uma promessa para Nhá Chica e quero batizá-la em Baepedi, porque ela me concedeu uma graça.
Não sabia onde era Baependi e jamais tinha escutado falar de Nhá Chica.

O período hippie passou, finalmente em 1978 a decisão foi tomada, e as duas famílias - dela e de seu ex-marido - foram até lá.
Descobri que Nhá Chica, que não tinha dinheiro nem para seu próprio sustento, passara 30 anos construíndo uma igreja e ajudando os pobres.


Eu vinha de um período muito turbulento e já não acreditava mais em Deus. Tinha abandonado meus sonhos loucos da juventude - entre os quais, ser escritor - e não pretendia voltar a ter ilusões. Estava ali naquela Igreja apenas para cumprir um dever social.
Enquanto esperava a hora do batizado, comecei a passear pelos arredores e terminei entrando na humilde casa de Nhá Chica, ao lado da Igreja. Dois cômodos e um pequeno altar, com algumas imagens de santos e um vaso com duas rosas vermelhas e uma branca.
Num impulso, diferente de tudo o que eu pensava na época, fiz um pedido:
se, algum dia, eu conseguir ser o escritor que queria ser e já não quero mais, voltarei aqui quando tiver 50 anos e trarei duas rosas vermelhas e uma branca.


Apenas para me lembrar do batizado, comprei um retrato de Nhá Chica.

Na volta para o Rio, o desastre: um ônibus para subitamente na minha frente, eu desvio o carro numa fração de segundo, o meu cunhado também consegue desviar o carro, mas o carro que vem atrás de choca, há uma explosão, vários mortos. Estacionamos na beira da estrada, sem saber o que fazer. Eu procuro no bolso um cigarro e vem o retrato de Nhá Chica. Silencioso em sua mensagem de proteção.

Ali começava minha jornada de volta aos sonhos, à busca espiritual, à literatura. Nunca me esqueci das três rosas. Finalmento, os 50 anos - que naquela época pareciam tão distantes - terminaram chegando.

Fui a Baependi pagar minha promessa. Alguém me viu chegando a Caxambu (onde pernoitei), e um jornalista veio me entrevistar. Quando contei o que estava fazendo ali, ele pediu:
- Fale sobre Nhá Chica. O corpo dela foi exumado esta semana e o processo de beatificação está no Vaticano. As pessoas precisam dar seu testemunho.
- Não. É uma história muito íntima. Só falaria se recebesse um sinal.
E pensei: "O que seria um sinal ? Só mesmo se alguém falasse em nome dela !"


"No dia seguinte, peguei o carro, as flores, e fui a Baependi. Parei um pouco distante daIgreja, lembrando o executivo de gravadora que estivera ali tanto tempo antes e as muitas coisas que tinham me conduzido de volta. Quando ia entrando na casa, uma mulher jovem saiu de uma loja de roupas:
- Vi que seu livro "Maktub" é dedicado a Nhá Chica - disse ela.
Garanto que ela ficou contente.
E não me pediu nada. Mas aquele era o sinal que eu estava esperando. E este é o depoimento público que eu precisava dar."

(As 3 primeiras fotos são de obras do artista plástico Marco Aurélio Dias e estão na Capelinha Nhá Chica, em São Lourenço. A 4ª foto é da Capelinha, e a 5ª da Igreja de Baependi)

2 comentários:

  1. A primeira vez que vi falar no nome de Nhá Chica foi lendo o livro de Paulo Coelho( Maktub)Amo esse grande escritor e agradeço a ele por conhecer essa maravilhosa santa.Desejo conhecer Baependi e ir até sua linda igreja.

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  2. Gostei muito de seu comentário, Ana Maria, pois esses relatos são importantes.
    Eu só conheci Nhá Chica aqui em S. Lourenço e fiquei impressionada com a história de Paulo Coelho !

    Obrigada pela visita.

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